Relembre fatos dos dias que merecem capítulo exclusivo na História dos mercados e o clima com que entramos em outubro
29 setembro 2008
SÃO PAULO – Foram 30 dias de incertezas, fatos nunca antes imaginados e respostas inéditas dos reguladores e bancos centrais em todo o mundo. Assim foi setembro de 2008, um mês que sacudiu Wall Street e que talvez, no futuro, mereça um capítulo separado na História do mercado financeiro internacional.
Desemprego atinge maior nível em duas décadas
01/09 – Ibovespa: 55.680 pontos, Dólar: R$ 1,64605/09 – Ibovespa: 51.639 pontos, Dólar: R$ 1,720
“Enquanto os mercados continuam a mostrar sinais de fragilidade, as preocupações com a perspectiva para a economia e as incertezas relacionadas ganham proeminência” – BIS (Banco de Compensações Internacionais) em relatório trimestral.
O primeiro dia de setembro foi atípico. A ausência dos mercados norte-americanos, por ocasião do Dia do Trabalho, deixou o mundo sem referência. O dia fechou com queda nas bolsas ao redor do mundo. Enquanto isso, conversas entre o banco de investimentos Lehman Brothers e potenciais compradores se desenrolavam.
No dia 4 de setembro o Índice Bovespa revela o primeiro recorde negativo. Aos 51.408 pontos, a bolsa atinge o menor nível do ano. No dia seguinte, na primeira sexta-feira do mês, a economia norte-americana recebe a notícia da perda de 84 mil postos de trabalho no mês de agosto. O desemprego atinge a maior taxa em duas décadas.
Fannie Mae e Freddie Mac resgatadas
08/09 – Ibovespa: 51.639 pontos, Dólar: R$ 1,72012/09 – Ibovespa: 52.392 pontos, Dólar: R$ 1,781
“Nossa economia e os nossos mercados não se recuperarão enquanto a maior parte desta correção não ficar para trás” – Henry Paulson, secretário do Tesouro norte-americano, em nota.
Após meses de intensa especulação e polêmica, o governo norte-americano decidiu assumir o controle das agências de crédito imobiliário Fannie Mae e Freddie Mac, que juntas são responsáveis por cerca de metade do volume de crédito total destinado à aquisição de imóveis nos Estados Unidos. Eufóricos, analistas do mercado chegaram a apontar a medida como um primeiro sinal de que a crise subprime caminharia para um final. As notícias reduzem “tremendamente as incertezas nos mercados financeiros e promovem a liquidez no mercado imobiliário”, disseram analistas à época.
Poucos economistas, ou nenhum, entretanto, imaginariam a escalada dos eventos que estavam previstos até o final do mês. Um ambiente de menor incerteza domina os mercados por alguns dias e, além disso, o debate sobre o “risco moral” da ajuda governamental ao setor financeiro ganhava corpo. Rumores sobre uma possível venda do Lehman Brothers e especulações sobre o anúncio de baixas contábeis do Washington Mutual circulavam nos mercados. Algumas sessões adiante, ambos teriam um final trágico.
Bancos de investimentos começam a cair
15/09 – Ibovespa: 52.392 pontos, Dólar: R$ 1,78119/09 – Ibovespa: 53.055 pontos, Dólar: R$ 1,830
“Não há espaço suficiente na primeira página dos jornais do país para todas as notícias de hoje (15/09)” - Consultoria First Trust Advisors, em relatório.
A terceira semana do mês começa com mais um fato histórico. Depois de lutar por um comprador durante o final de semana, o banco de investimentos Lehman Brothers choca o mundo com o anúncio do pedido de concordata. Ao contrário do ocorrido com o banco Bear Stearns em março, as autoridades norte-americanas negaram-se a conceder maiores facilidades para os compradores. Ademais, a Merrill Lynch foi comprada pelo Bank of America por US$ 50 bilhões. Símbolos de Wall Street, os bancos de investimentos começam a sumir.
Em mais um dia histórico, as bolsas ao redor do mundo presenciaram a pior sessão desde 11 de setembro de 2001. No dia seguinte, em outra medida espetacular, o governo norte-americano anuncia um plano emergencial de resgate da AIG (American International Group), maior seguradora do país. Na quinta-feira, com mais uma ação conjunta dos bancos centrais e, na sexta-feira, com as medidas para combater as vendas a descoberto em ações do setor financeiro nos EUA e no Reino Unido, as bolsas disparam. No Brasil, o Banco Central anuncia leilões de venda de US$ 500 milhões com compromisso futuro de recompra, a primeira operação deste tipo em cinco anos.
Inicia o debate sobre o plano de US$ 700 bilhões
22/09 – Ibovespa: 53.055 pontos, Dólar: R$ 1,83026/09 – Ibovespa: 50.782 pontos, Dólar: R$ 1,854
“Este programa visa atacar, de forma fundamental e abrangente, as raízes das causas de stress em nosso mercado financeiro, removendo ativos podres do nosso sistema”, Henry Paulson, em nota.
Ainda no final de semana, Henry Paulson revela o plano de resgate de até US$ 700 bilhões para ajudar o setor financeiro. O programa prevê a compra, pelo governo, dos ativos podres dos bancos, para “limpar” o sistema e resgatar a confiança dos investidores. Pela manhã da segunda-feira o mercado recebe o anúncio de que os últimos remanescentes entre os grandes bancos de investimento nos EUA, Morgan Stanley e Goldman Sachs, transformaram seu modelo de negócios, passando a atuar como holdings financeiras, reguladas pelo Federal Reserve.
Em um sinal claro de que a crise também aporta no Brasil, a Sadia revela que operações com derivativos cambiais levaram a perdas de R$ 760 milhões, reflexo das extremas variações na cotação da moeda norte-americana. Além disso, a Aracruz também disse que as perdas cambiais poderão exceder os limites previstos para o trimestre. A semana encerra com o mercado cético em relação à aprovação do plano anti-crise, depois de acaloradas discussões entre os partidos Republicano e Democrata.
Plano é derrubado no Congresso; bolsas despencam
“Rejeição do pacote foi decepcionante” - Henry Paulson, em coletiva de imprensa.
Depois de uma manhã em que os mercados apostavam na aprovação do plano no Congresso norte-americano, a despeito das incertezas ainda presentes no mercado sobre a efetividade do programa, os partidos Republicano e Democrata surpreendem com a reprovação do texto de 110 páginas do “Emergency Economic Stabilization Act of 2008“, “Ato de Estabilização Econômica de 2008“, na tradução livre. A resposta dos mercados foi imediata e as bolsas mergulham em uma forte queda.
Nos EUA, os mercados apresentam a maior queda desde o “crash” de 1987. No Brasil, o Ibovespa chegou a cair mais de 10%, acionando o sistema “Circuit Breaker”, que paralisou o mercado por 30 minutos. O índice encerrou o dia 29 de setembro em baixa de 9,36%, negociado a 46.028 pontos. O dólar comercial fechou vendido a R$ 1,965, com alta de 5,99%. Setembro acaba na terça-feira como um mês que marcou o mercado financeiro. A crise, entretanto, se estenderá por outubro. Mais 31 dias de previsões, incertezas e, talvez mais falências. Quem sabe esperanças.
Fonte: Artigo retirado na íntegra do site msn notícias